quarta-feira, 23 de setembro de 2009

- Onde está o blues que conforta?


Ele decidiu ir embora. A mala em cima da cama em poucos minutos estará cruzando aquela porta em direção a qualquer hotel barato de quarto escuro, lençóis surrados, e bem longe de meus confortos. Eu assisto cada roupa entrar naquela mala com a calma articulada de um ancião que já viu tudo passar nessa vida. Afinal passa, tudo passa, rápido ou lentamente. Eu escuto cada palavra ofegante com os ouvidos de uma velha surda, confundido palavras, ou apenas se fazendo de incapaz porque não quer ouvir o que machuca. E eu me sirvo de outra dose daquela vodca quente que, já faz tanto tempo, é elemento obrigatório em nossas compras de supermercado. Sempre tive dom para donzela abandonada que aquilo virara quase um estilo de vida, e com o tempo eu aprendi a me vestir e agir como uma. Cumprir meu papel em meio ao abandono será apenas por em pratica minhas teorias. Giro a vodca dentro do copo, observo o líquido em movimentos circulares, tento me controlar e ouvir algum outro som que não os gritos dele. Agarro a minha carteira de cigarros me certificando que ele não levará minha ultima companhia nociva, já basta estar se levando de mim.
Ligo o Frank no rádio, o velho amigo das pequenas desoladas e dos bêbados chorando a fuga de seus amores em bares vadios. Agora acho que estou tentando a técnica onde me convenço de estar sonhando, dramatizar um pouco a história me faz uma donzela ainda mais abandonada, e até solto um risinho de canto de boca. Eu te amo, ou não me assolaria com sua partida, e nem fingiria, também não estaria tão confusa sobre estar realmente sentindo ou fingindo sentir aquilo tudo. Acendo um cigarro. Acho que às vezes todo mundo que ser outra pessoa além do que se é, independente de quem seja. Agora sinto meu corpo afundar involuntariamente no sofá, como se quisesse ficar microscopicamente visível, apenas. Primeira vez em ano que tento dissipar minha altivez, e desvencilhar de meu orgulho (escondendo minha cara esnobe e meu nariz empinado). Dessa vez eu quis ficar do tamanho da inexistência, só para não ter de encarar minha velha amiga solidão, que aproveita para se instalar assim que ele vai embora deixando na lembrança apenas o farfalhar das chaves abrindo a porta. Eu ainda não me acostumei com as semelhanças, imagina então ter que aprender a gostar dos extremos? Eu perdi meu posto de ‘’dramática escritora falida’’ assim que a realidade me veio como um tapa na cara.