terça-feira, 27 de outubro de 2009

- Os programas de índio do meu pai rs

Se vocês estiverem lendo esse texto, significa que a vossa querida blogueira sobreviveu a intensos dias de terror e tortura, mas agora está sã e salva nas dependências de seu lar. No dia 20 de outubro de 09 o querido progenitor da qual vos acompanham chegou com uma proposta aparentemente tentadora: matar dois dias de aulas para fazer uma viagem a passeio, com a finalidade de descansar a cabeça. Logo de cara, e sem pedir mais detalhes, vossa fiel escudeira aceitou o convite e preparou as malas terrivelmente organizadas (ou não) para embarcar no outro dia. Já pela tarde do dia 21 pegaríamos a estrada, chegaríamos de madrugada ao local destinado. A viagem tranqüila, o destino até então era o Mato Grosso. Engana e encorajada pela falsa proposta de ir para Cuiabá, estava eu tranqüila com meu gatorade sabor maracujá e morango. Quando chegamos ao local, a amiga que vos fala estava dormindo tranquilamente recostada no banco traseiro da caminhonete. ‘’Abra os olhos filhinha, chegamos’’, ouvi papai dizer. Foi então que despertei e dei de cara com a mais terrível imagem do ano, uma cidade ribeirinha na divisa com Mato Grosso e Goiás. Com menos de 50 habitantes e apenas duas ruas, estava eu enfurnada em Cocalinho – MT. Foram dias duros sem celular nem internet, os quais sua sofrida blogueira transcorrerá abaixo, acompanhe agora a dolorosa saga de 4 dias no meio do nada.
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Quarta – 21 de outubro de 2009
Cheguei de madrugada e ainda estou desesperada com a idéia de passar meu final de semana no meio do mato. A ambição de faltar dois dias de aula para descansar agora se transforma em arrependimento. O quarto de hotel pelo menos tem ar condicionado, mas as paredes são rachadas e eu fico fungando o tempo todo, sem falar dos mosquitos. Segundo pesquisas esse é o melhor hotel da cidade, estou amedrontada com a idéia de pensar no outros. Meu pai parece ter chegado ao paraíso, ou pelo menos estar a dois passos dele, eu já acho que atraquei no inferno com passagem só de ida. Papaizinho também está meio chateado, Eu acabo de dar a birra mais mimada de toda minha vida, afinal, eu fora profundamente enganada e agora estou com medo de voltar para casa com a pele dois tons acima ou toda vermelha e descascada (o que é mais provável). Se eu sobreviver, não me esqueçam de ir a igreja agradecer por toda a poluição e desmatamento já existente, pelas águas poluídas e os carros barulhentos da cidade, agradecer pelos ladrões pela internet e pela fechadura de casa, dar graças pela vida de Viviane Westwood e Alexandre Herchcovitch, Sex Pistols e Libertines, e tudo o que pode ser considerado civilizado. Mas agora eu só penso em tomar todos os antidepressivos do mundo e dormir até esse pesadelo passar.
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Quinta – 22 de outubro de 2009
Enfim salva em meu quartinho gelado de hotel, na verdade, eu passei quase todo o dia aqui afinal meu pai pescou a maioria do dia. Quando ele estava na cidade passei um tempo com ele, porém logo arranjava uma desculpa para vir pro hotel que fica a 100 metros do rio e do bar. Tirei algumas fotos também, passei dez longos minutos observando a água e não foi tão torturante. Eu só não estou mais entediada e chateada por que meu pai está muito feliz, e eu o amo mais do que qualquer pessoa nessa vida. Eu adoro ver meu lindinho sorrindo, meu pai é minha vida galera, e me manter sorrindo perto dele é um dos mil esforços que eu posso fazer por todo o amor que sinto por ele. Mas mesmo assim isso aqui continua sendo a pior prisão/tortura pra mim, eu tenho pavor de mato. Apesar de todo o repelente eu já tive que tomar um antialérgico porque os mosquitos dos infernos me picaram e eu acabei tendo uma reação terrível na perna, tem um calombo enorme, vermelho e quente. Meu pai me mandou tomar o remédio. E também apesar de todo bloqueador solar, os poucos minutos que passei no mormaço já me deixaram avermelhada. Óh tristeza! Mas vejapos pelo lado bom, menos um dia de tortura. Então é isso galera, meu dia se resumiu basicamente a ler Fernando Sabino e escutar Sex Pistols num quarto de hotel.
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Sexta – 23 de outubro de 2009
Menos um dia, uff. Não estava muito bem hoje, meio triste, não sei se é o clima desse tipo de cidade que me dá uma nostalgia da minha infância quando toda a pseudo-família ainda pseudo-existia e vínhamos passar os feriados em cidadelas como essa, ou talvez seria simples problemas cotidianos que ficam no meu subconsciente, e sei que eu não posso tirar férias deles. Enfim, minha perna ainda está inchada e dolorida, eu gastei 100 unidades no orelhão para não me sentir tão incomunicável (mas convenhamos, estou incomunicável). Falei com a Dani, saudades e inveja dela (ela está na pseudo-civilização com a galera rs), e também falei com a mamãe desejando muito que ela estivesse aqui. Meu pai fez churrasco (eca rs) hoje, e eu escutei mais Sex Pistols e um tanto de Division, ouvi Arctic e DEUS! Como eu estava com saudades de The Last Shadow . Eu agora estou tomando um antiinflamatório infeliz, porque cheguei à conclusão que tenho alergia de tudo neste lugar, inclusive do lugar. Meu dia foi outro saco, mas meu pai aprece tão bem e isso me deixa quase mais feliz do que se eu estivesse na Europa rs.
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Sábado – 24 de outubro de 2009
Ontem externei uma depressão tão profunda que mal me lembro de pensar sobre o quão estava exausta para escrever. Eu queria ir embora e começar uma deita, que queria minha mãe e na verdade não queria nada. Dormi muito, comi demais, fiquei irritada com um livro sobre animais até conseguir interpretá-lo direito. A internet daqui é uma maravilha discada, sim, DIS-CA-DA, a coisa mais pré-histórica que se pode esperar de um lugar e internet discada em uma lan house. Tudo me deixou muito nervosa, a única parte boa do dia foi andar de cano com meu pai depois de quase a virar quatro vezes depois de uma insólita idéia do papai de tentar me ensinar a pilotar aquilo. E eu me dei conta de como às vezes, mesmo sendo a pessoa mais fisicamente próxima do papai, pareço estar à quilômetros de distância dele. Desde que ele chegará atônito com aquela idéia de canoa (a muuuuuito tempo atrás, diga-se de passagem) eu nunca havia mostrado nenhuma curiosidade naquilo que quase o tirava o sono de tanta excitação. Foi ai que me dei conta de algo ainda pior, todos os conhecidos do papai, inclusive todos os funcionários dele e meu irmão, todos, sem exceção, já haviam andado naquela canoa, e eu nem atinara para conhecer a tal que leva o meu nome. Ele estava tão feliz mesmo depois de eu quase nos afogar rio abaixo tentando aprender a acelerar aquele troço do jeito certo. E mais uma vez, valeu fazer da felicidade do meu pai, a minha felicidade.
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Domingo-25 de outubro de 2009, vulgo: Segunda – 26 de outubro de 2009Eu quase perdi a noção do tempo. Amanhã é o dia de dar tchau a cidadela insossa, e olá a minha vida enfadonha e agitada naquele projeto de capital cuja o calor é infernal (até rimou, poxa!). Durante todo o final de semana li três livros, um de 400 paginas outro de 300 e um de 700, parece loucura não? Me sinto tão desligada do mundo como se tudo lá fora não existisse e eu estivesse completamente languida e poética. Me sinto louca. Louca para começar uma dieta, diga-se de passagem. O mundo lá fora, longe do rio, da comida caseira e do meu pai parece inexistente, parece mais com um conto de fadas do que com algo que eu realmente tenha vivido, (ou vivo ) assustador e nada aconchegante. Parece-me uma idéia meio torpe encontrar-me com meus amigos, ou professores, e até mesmo com minha psicóloga. O orelhão se parece mais com um portal para o mundo externo que a mais de 24 horas eu não consigo atravessar, a única previsão de contato com o mundo fora daqui. Isso tudo me encobriu por inteira, esse lugar, essas pessoas que parecem nunca terem saído daqui, tudo tão místico e incrédulo. Todo o tempo no quarto do hotel na companhia de Pistols e Division, Laura Marling e Spektor. Foram dias tranqüilos, mas agora atenuar-me a realidade parece tão difícil como sair dela. Talvez eu esteja um pouco, poética demais. Meu quarto, só agora me dei conta do estado em que vou deixá-lo, parece mais um antro de punks anárquicos ou um chiqueiro. Meu pai tem razão em reclamar quando vem me acordar toda manha. Um beijinho de bom dia e uma exortação seguida de uma tremenda explicação desnecessária de como isto é apenas um final de semana e eu não preciso em comportar como uma maníaca depressiva viciada em heroína a beira de um colapso nervoso. Espero que nada de muito terrível tenha acontecido para me assustar nessa ‘’volta á civilização’’.