quarta-feira, 14 de outubro de 2009

- Você sempre sorri para mim


'' ... Existe um lugar neste mundo onde pessoas como eu são encontradas por pessoas como você, e esse lugar é divino. Você é a melhor droga de amigo que eu posso ter, você sempre sorri para mim quando os tempos são ruins, você sempre me faz sentir melhor quando estou chateada, você sempre sorri para mim e eu sorrio para você também.'' Smile Upon Me - Passion Pit.
Quando você me encontrou pela primeira vez, eu tinha pouco mais de 10 anos. A única vez que eu havia escutado algo sobre o Nirvana foi o meu pai falando sobre a banda, acompanhado por adjetivos como “barulhento” e “enjoativo”. Não foi o que eu achei. E quase como mágica ou macarrão instantâneo eu me apaixonei por aquilo tudo como se tivesse encontrado Deus. Eu troquei meus vestidos de florzinhas por calças rasgadas, minhas bonecas por alguns CDs e LPs, e meus pais por um rosto na parede, um rosto morto que mal sabia, mas havia me dado a vida. Assim seguiu longos anos de agonia na minha casa, onde frases como ‘’abaixa/desliga esse som’’ ou ‘’não quero mais escutar essas músicas demoníacas’’ eram ditas todos os dias, religiosamente. MPB e Eliana não me encantavam mais. E eu passei meus dias idolatrando alguém que sequer sabia que eu existia, e nunca saberia. Eu quis fazer justiça, quis conversar com você como se fosse uma alma me acompanhando, te dava bom dia boa noite e te contava como tinha sido meu dia, isso quando você não ia comigo para a escola. Mas eu acho que você já me conhecia de alguma forma. É estranho porque passamos tantos momentos juntos, era sua voz no meu discman quando fui assaltada a mão armada, era sua voz no meu mp3 na virada de 2007 pra 2008, era você comigo perdido do Bretas, era você comigo num canto de um apartamento escuro em Goiânia, quando eu já era grande ou quando fui uma menininha assustada... Foram coisas demais para desconhecidos fazerem juntos. Minha primeira psicóloga foi por sua causa, bons tempos com a doutora Luana. Alguns anos depois eu faria nossa ritual de despedida, uma musica sobre uma garota de 14 anos sendo estuprada, muito sórdido para uma despedida, mas eu precisava viver. Precisava sair de casa, passar meus dias sem amigos enfurnada num quarto ouvindo sua voz, lendo sobre você, não iam me levar a nada. Eu precisava aceitar que você estava morto e que eu conversava sozinha. Foi a despedida mais dolorida da minha vida. Não sabia eu, mas nunca houve uma despedida. Agente se esbarrava pelas esquinas e eu tinha sérias recaídas. Até eu aceitar que você tinha sido meu glorioso primeiro rock-star, é isso é como a primeira vez, a primeira menstruação ou o primeiro beijo, nuca se esquece. Hoje eu não tenho mais 10 anos, não preciso mais abaixar o som, não escrevo mais seu nome no meu guarda-roupa, não quero mais saber se você se matou ou se te mataram, não tenho mais inveja da sua esposa, da sua mulher ou da sua irmã. Não passo mais as tardes lendo curiosidades sobre você e nem me interessa mais lembrar o numero do seu sapato, não brigo mais com meus pais e com pessoas que falam mal de você ou de sua música, e hoje eu adoro Hole e mal sabe você do projeto solo da Courtney Love.E não é porque eu te ame menos, agente cresce e aprende que o que é seu, é seu, independente do mundo ao redor. Eu só quero prestar uma homenagem para aquele que me salvou, que sempre me acompanhou e sempre vai me acompanhar, aquele que abriu as portas para a boa musica na minha vida, aquele que eu sempre vou ter prazer de ouvir cantar e ensinarei meus filhos e meus netos a ouvir, dizendo: esse sempre será o grande amor da minha vida.