Eu sonhei com uma febre,
um que me curaria deste frio, coração quente de inverno,
Com calor de derreter as lágrimas congeladas e queimado com razões que continuam
Nestes meses trançados eu mergulho sem uma luz para seguir
Mas eu juro que eu seguiria qualquer coisa - só me tire daqui
E você tira seis meses para adaptar e você tira mais dois para deixar a cidade
E no evento que você adapta nós poderíamos não querer você por perto ainda
Eu caí para a promessa de uma vida com propósito
mas eu sei que agora isso é impossível
assim eu bebo ficar quente e matar recordações selecionadas
porque eu apenas não posso pensar mais nisso ou sobre mim esta noite
Eu me dou três dias para me sentir melhor ou eu
juro, eu dirigirei para dentro de uma porra de um precipício
porque se eu não posso me fazer sentir bem então
como eu posso esperar qualquer um outro para fazer merda?
Eu grito para a luz solar ou um carro para me levarem para qualquer lugar
apenas me tire desta morta e eterna neve
porque eu juro que eu estou morrendo. Lentamente, mas está acontecendo
e se a primavera perfeita está esperando em algum lugar
apenas me leve lá e diga e minta pra mim e diga que vai ficar tudo bem.
a song by bright eyes
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
- If Winter Ends
Postado por Isabella Achcar às 14:44
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
- Escarlate
Eles podem me tirar de tudo
Me proteger do mundo
Só não podem me livrar de mim
Da minha visão turva
Sobre cada copo de veneno doce
E cada prédio um trampolim
Postado por Isabella Achcar às 05:06
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
- Amor impróprio

A dor se vê presente naquilo que detestamos. Aprende-se a conviver com a dor assim como se aceita o que lhe é detestado. A monotonia da rotina faz-se contentar em acordar preso a quem você não ama, a levantar-se junto a esse ser que cada dia torna-se mais tenebroso a você, afinal tens todo o tempo para lhe vasculhar as pequenas partes e pontuar-lhe os defeitos. Você a molda e tenta encaixá-la ao que melhor lhe parece, nada muda. Certas vezes num súbito de raiva, num lampejo de ódio, você a causa mal, ou devolve-lhe todo mal que te faz desde que aprendeu que você nunca se livraria dela sem livrar-se de si. Você a alimenta, sente suas malditas necessidades, você a faz pulsar mesmo a detestando, não tens outra escolha. Meche em seus cabelos, escuta as ofensas a ela oferecidas, controla-a. Os defeitos dela são atribuídos a você, enquanto os elogios a ela despendidos deveriam ser a você dirigidos. Deus, ela é o ser mais terrível que se pode existir, não há nada que pode ser aproveitado, e ainda quando se tenta aproveitar algo, te repelem. Você deve deixar toda esta escória em seu maldito lugar, e nunca se livrar dela. Mil castigos te podem ser impelido caso tente a aniquilar, são torturas épicas e você se pergunta se isso pode ser realmente pior do que tê-la consigo para sempre e carregar esse fardo. Você não pediu pra nascer sendo ela.
Ah, da próxima vez eu não serei, eu.
Postado por Isabella Achcar às 20:24
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
- Lá se vão meus dedos

Uma espera incessante. Já há algum tempo, estou nessa busca que nunca acaba. A todo o momento eu espero o que vem depois, e depois, e depois. Mas, nunca parece chegar. Nada faz isso sumir, esta coisa alojada dentro de mim que me faz sucumbir, é que as coisas explodem ás vezes, e eu nem sempre (repito, nem sempre) consigo manter o controle. Então, eu choro. Sentida como se tivesse perdido algo e volto à procura, a espera, de algo que eu nem sei se perdi, algo que eu nem sei se tive. Ansiedade, e lá se vão meus dedos de novo.
Postado por Isabella Achcar às 20:00
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
- Sem amor, segue-se o plano
Eu estou sentada na sacada do meu apartamento, classe média de Brasília, é, eu faço parte agora. Tenho um trabalho legal, e conheço do Gate’s pub até o UK Brasil, é cara, eu tomo café na cafeteria da LBV sempre que estou com vontade, e acompanhada por umas baforadas rápidas do meu Lucky Strike, sem culpa alguma. Não olho mais para os lados, não há ninguém me observando. Eu segui o maldito plano cara, eu tenho a discografia completa dos Beatles em cd, embora eu não seja a maior fã, eu segui o plano a risca sem deixar nada dar errado. Tenho a maioria dos livros do Woody Allen, já li mais de 3 mil livros desde a adolescência. Me formei em medicina pra ganhar um apartamento, yeah, e fiz moda pra nunca dizer que realizei meu sonhos. Cara eu fiz tudo certo, mas agora o plano acabou. Em partes, falta ter um filho aos 30 anos, mas eu vou oferecer a ele uma mãe no mais puro ‘’sistema capitalista’’, ensiná-lo a não usar drogas mesmo sabendo que duas ou três vezes ele vá experimentar e torcer para que ele só experimente. E vou colocá-lo numa maldita escola particular com outros porquinhos capitalistas que no futuro farão pegas e comerão menininhas da escola, ou virarão gays, terão a Lady Gaga como musa e sonharão em fazer moda em Milão . Se nascer menina, será a primeira vez que o plano deu errado, sempre quis um menino. Eu vou colocá-lo dentro do carro e levá-lo ao falido parque a da cidade, e algumas vezes ao parquinho da esquina. A parte da figura paterna eu ainda não bolei, mas pretendo fazê-lo chamar meu pai de pai também, afinal o meu sempre será o melhor. Eu vou seguir o plano mais uma vez, e tudo vai dar certo e será... Uma bosta! Uma maldita chatice programada para dar certo. Eu continuarei comprando roupas e sapatos que nunca usarei, visitando meus pais nas férias. Minha casa só não está uma bagunça porque tenho a Marlene em minha vida, cara, eu morei 6 meses em Londres, e dou festinhas para os amigos muito bem regado a ‘’tudo-o -que- você-pode-querer’’. Não tenho uma mansão na Asa Sul, nunca foi meu ideal de vida. Não tenho um carro importado e nem um jatinho, eu sempre quis ter uma vida apenas estável, e eu tenho. MAS EU NUNCA HAVIA FEITO A PERGUNTA CRUCIAL... E DEPOIS QUE TUDO DESSE CERTO, O QUE ACONTECERIA DEPOIS?
ps: Coisas que a dona desse blog deve fazer:
1 - Parar de ler Caio Fernando Abreu , IMPRETERÍVELMENTE.
2 - Parar de ler Woody Allen.
3 - Parar de ler aquele livro do Gaiman.
4 - Parar de filosofar com o Rodolfo, IMPRETERÍVELMENTE.
5 - Parar de pensar no futuro, IMPRETERÍVELMENTE.
Postado por Isabella Achcar às 09:16
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
- Cantos, infância, cidade, saudade

Existem alguns músicos que te acompanham desde pequeno, que apesar das diferentes fases pelas quais você passa em algum momentinho você olha... E lá está o dito cujo cantando pra você. Um dos meus seguidores é o tio Oswaldo Montenegro. Brasília , aaaaaah Brasília, meu lugar preferido, e não é por falta de conhecer outros lugares não. Brasília + Férias + Apartamento no Cruzeiro + Infância + Oswaldo Montenegro = Ser feliz e não sabia. Bem, você pode achar estranho, uma criança brincar de bonecas ao som da mais pura MPB, mas é que não pode se esperar outra coisa de uma infância sem primos, nem acesso a outras crianças. Eu nunca tinha me sujado com terra ou corrido na rua, e minha melhor amiga de infância era minha madrinha... Então posso dizer que aproveitei ao máximo minha vida de criança a base de danoninho e apartamento. Meu contato com adultos me fazia ter mais ídolos como Oswaldo, Rita Lee, e Caetano. E eu mal podia esperar para chegar as férias, eu tinha minha madrinha e minha tia inteiramente pra mim, e Brasília era meu reino encantado de luzes natalinas.
Ah cara, ontem ouvindo Oswaldo eu vi tudo passar na minha frente como quem assiste um filme e nem se quer pode acreditar que aquela era você. Tão pequena, tão cheia de razão, tão linda, tão certa, pura. E eu cantava ‘’bandolins’’ diretinho, mas Léo e Bia era uma história de amor, e eu todo libriana sempre a mantive como preferida. Ah minha Brasília que me parecia tão maior, tão cheia de sonhos, tão misteriosa, eu não te reconheço mais. Ah minha Isabella tão linda, tão doce, tão perfeita, ninguém te reconhece mais.
Como se não fosse tão longe, Brasília de Belém do Pará. Como castelos nascem dos sonhos. - Oswaldo Montenegro
Postado por Isabella Achcar às 08:29
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
- Vamos nos permitir
E não há tempo que volte amor
Vamos viver tudo o que há prá viver
Vamos nos permitir – Lulu Santos
Enfim, eu tenho algo a dizer. Eu me cansei de esperança, esperar, e esperar... E não que isso seja negativo, é que esperando eu estou perdendo muitas coisas, já que não há mais possibilidades para você. E o que eu fiz foi aceitar de coração aberto que não vai mais voltar, que nada vai voltar, e que você não quer que nós existamos mais. Não, os tempos não voltam como eu pensava. Mas eu matei, eu tentei ressuscitar, pena que não seja algo com muitas vidas certo? ... Que fique claro, que eu tentei, na verdade eu ainda estou tentando porque sempre restará um restinho de esperanças, naquele fundo mais profundo. Mas não vou me parar, porque eu sou amada, sim, eu não sou essa total escória da humanidade que lhe parece... Amor próprio menina! Ou o pouco que me sobrou dele. Eu tenho pessoas por mim e eu continuo viva e eu continuo sentindo um baita calor nesse sol de 40°, eu sinto dor quando me machuco, então tudo indica que eu ainda estou aqui com ou sem você. Sim, eu posso amar de novo talvez, Arnaldo Jabour disse que o bom da vida é que se pode ter muitos amores e eu estou fazendo um puta esforço para me convencer. Eu quero que de alguma forma você saiba que eu estarei aqui quando precisar, se um dia quiser conversar (muito, muito improvável, mas...), e quando estiver se sentindo mal eu estarei pronta pra cuidar de você caso seja um pouco humilde e recorra a quem realmente te quer por perto, mas eu não estarei com a vida estacionada... Eu sempre serei muito mais nova, não importa a idade que eu tenha, mas basicamente não significa que eu seja muito mais burra ou menos atenciosa. Eu só preciso dar um pouco de toda a atenção que foquei em você, pra tudo o que estou deixando desmoronar ao meu redor. Por você não vai mais voltar, não quer mais voltar, não dá mais pra voltar, não pode mais voltar, não lhe convém voltar, não se sente mais bem em voltar, não lhe é certo voltar... Mas eu estou aqui. Eu juro que nada disso é culpa sua, você sabe.
Postado por Isabella Achcar às 18:03
sábado, 5 de dezembro de 2009
- Uma vida tão falsa
Cavei para mim mesmo um túmulo raso e estou tentando sair dele vivo. Continuo dizendo a mim mesmo que eu tenho que ser bravo, continuo dizendo até meu amor secar. Eu não tenho muito sucesso e isso me deixa triste às vezes. Perdedores não podem escolher quando eles querem fazer as coisas direito.
Libertines
Postado por Isabella Achcar às 17:47
- You know I cherist you, my love
OHHHHHH HOW I CHERIST YOU, MY LOVE.
Postado por Isabella Achcar às 17:08
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
- 3:14
Eu estou acordando depois do meio-dia
Eu nunca estou certo de que dia é esse
Eu estou desejando que eu fosse você
Eu estou desejando que eu fosse qualquer outra pessoa
Eu estou cansado de toda a dor
Eu estou cansado de todos os problemas que eu causei
Eu estou cansado de todas as coisas
Bem eu vou apostar que você vai esquecer de mim
Selective Memory - We Are Scientists
Postado por Isabella Achcar às 22:13
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
- Parte da angustia juvenil
Os Sobreviventes - Caio Fernando Abreu
Sri Lanka, quem sabe? ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade, e você em Sri Lanka, bancando o Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras & abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodca nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trept, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu deus que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro e não queria lembrar, mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, e não sei se você acreditou. Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum físico, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou. Cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, eu enfiava fundo o dedo na boceta noite após noite e pedia mete fundo, coração, explode junto comigo, me fode, depois virava de bruços e chorava no travesseiro, naquele tempo ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem, o Relatório Hite liberou a punheta. Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso? naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, imbecil, e eu disse não, meu bem, o que acontece é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virginia Woolf, como era mesmo o nome da fanchona? Vita, isso, Vita Sackville-West e o veado do marido dela, ra não se erice, queridinho, não tenho nada contra veados não, me passa a vodca, o quê? e eu lá tenho grana para comprar wyborowas? não, não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral não tenho nada contra qualquer coisa que soe a uma tentativa. Eu peço um cigarro e ela me atira o maço na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo nem eu a lamber boceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castafieda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos tolos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun little darling, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54,80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos em Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, na beira do rio, deve haver uma porra de rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, sabe, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que. Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de cl ín k.(clínica),lembra? Você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhava entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário & positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária e bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-ci-al criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhas do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, neste apartamento que pago com o suor do po-ten-ci-al criativo da bunda que dou oito horas diárias para aquela multinacional fodida. Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu então estendo o braço e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e velha demais e completamente bêbada, eu não tinha estas marcas em volta dos olhos, eu não tinha estes vincos em torno da boca, eu não tinha este jeito de sapatão cansado, e eu repito que não, que nada, que ela está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho ao acaso o Noturno número dois em mi bemol de Chopin, eu quero deixá-la assim, dormindo no escuro sobre este sofá amarelo, ao lado das papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de ninar, mas ela se contrai violenta e pede que eu ponha Ângela outra vez, e eu viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, fragmentos azedos sobre as línguas misturadas, mas ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor repetindo não se esqueça então de me mandar aquele cartão de Sri Lanka, aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair. Por trás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Ângela, nem que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo e repetindo que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé, axé! eu digo e insisto até que o elevador chegue axé, axé, axé,
odara!
Postado por Isabella Achcar às 08:18
- Sobre contentar-se
Pode ser
Não sei por que ainda insisto
Em ficar a beira do abismo
Afim de não deixar tudo morrer
Deixa assim
Mal sei eu
Que há tempo morreu
Só não matei de mim
Então, que assim seja
Também, onde já se viu
Eu que plantei chuchu
Querendo colher cereja
Postado por Isabella Achcar às 05:27
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
- Protetor
Hoje eu vou te contar um segredo, eu já fingi estar dormindo, só pra te ver chorar sentado do lado da cama olhando para meu suposto sono pedindo a Deus força para ser maior que o mundo, força para poder me segurar, força pra me exortar sem me afastar. Mas eu nunca precisei de mais nada quando estás por perto, você me ama todo momento, é incrível como me ama. E te agradecer seria impossível, você me deu cabelos finos, olhos verdes, e um sobrenome bonito, você atende meus telefonemas me chamando de razão da sua vida, e eu sei que eu sou. Você me pega no colo e enxuga minhas lágrimas quando me vê confundindo sorte e morte por questão de apenas uma letra. Você não é melhor pai do mundo, você é o único, é o meu.
Postado por Isabella Achcar às 15:36

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